no projetor: os vencedores do quati de ouro 2013

tive quase um ano e dez meses para ver os filmes e decidir os vencedores, mas não teve jeito: nem mesmo o tempo alongado de digestão me ajudou a definir quem deveria ganhar o quati de ouro do último ano. a força dos candidatos todos, especialmente duns três que protagonizaram a disputa com mais vigor, me levou a tomar a decisão no ultimíssimo minuto, durante a própria cerimônia em que comemorei o prêmio junto com amigos.

a vitória foi de quem me pegou mais em cheio: cru, íntimo e sem rumo, o vencedor me pegou desprevinido e me jogou longe (e, à vez, pertíssimo). de novo, só o tempo vai me ajudar a entender se a decisão foi a mais cabida, mas já me fica claro que são esses solavancos súbitos que mais me costumam interessar na arte.

sem mais, os ilustres vencedores do quati de ouro, definidos a partir dessa seleção prévia de indicações, são:

fotografia


darius khondji, era uma vez em nova iorque

cena


acerto de contas, era uma vez em nova iorque

trilha original


robin coudert, grand central

montagem


marília moraes e tina baz, elena

ator coadjuvante


bruce dern, nebraska

roteiro adaptado


julie delpy, ethan hawke e richard linklater, antes da meia-noite

filme de estreia


elena, de petra costa

atriz coadjuvante


scarlett johansson, ela

roteiro original


spike jonze, ela

ator principal


leonardo dicaprio, o lobo de wall street

elenco


era uma vez em nova iorque

atriz principal


cate blanchett, blue jasmine

direção


petra costa, elena

filme


elena, de petra costa

Posted in Arte, Listas, No projetor | Leave a comment

no projetor: os indicados ao quati de ouro 2013

sempre em julho divulgo o quati de ouro: é uma espécie de anti-óscar, uma lista com os meus filmes prediletos do ano anterior. os critérios, é claro, estabeleço eu mesmo, então é bom se aprochegar com um grão de sal. esse ano, por conta duns imprevistos bem agradáveis, o pobre quati quase não viu a luz. na reta final, porém, me animei e o resultado agora vem a público: o glamour é pouco, mas a ousadia compensa.

nessa quinta edição (pelo menos à teimosia já posso evocar sem modéstia, me parece), as regras seguem quase as mesmas: como de hábito, é elegível qualquer filme que tenha sido lançado pela primeira vez em 2013 em algum canto do mundo; só muda o prazo para apreciação, que dessa vez seguiu até o último dia 25 de outubro. a lista de filmes que concorreu às vagas está aqui. os vencedores, anuncio na próxima semana, em 3 de novembro. aproveito o ensejo para prestar meu respeito a dois filmes de que muito gosto, mas que, na dureza da seleção, ficaram de fora: azul é a cor mais quente e pais e filhos.

sem mais, os ilustríssimos indicados ao quati de ouro de 2013.

filme


antes da meia-noite, de richard linklater


a dança da realidade, de alejandro jodorowsky


ela, de spike jonze


elena, de petra costa


era uma vez em nova iorque, de james gray


expresso do amanhã, de bong joon-ho


gravidade, de alfonso cuarón


inside llewyn davis – balada de um homem comum, joel e ethan coen


la jaula de oro, de diego quemada-díez


o lobo de wall street, de martin scorsese

menções honrosas


o abismo prateado, de karim aïnouz


blue jasmine, de woody allen


um estranho no lago, de alain giraudie


frances ha, de noah baumbach


short term 12, de destin daniel cretton

direção


petra costa, elena


james gray, era uma vez em nova iorque


alejandro jodorowsky, a dança da realidade


spike jonze, ela


martin scorsese, o lobo de wall street

elenco


os amantes passageiros


blue jasmine


era uma vez em nova iorque


a outra pátria


tatuagem

ator principal


leonardo dicaprio, o lobo de wall street


chiwetel ejiofor, 12 anos de escravidão


joaquin phoenix, ela


joaquin phoenix, era uma vez em nova iorque


irandhir santos, tatuagem

atriz principal


cate blanchett, blue jasmine


marion cotillard, era uma vez em nova iorque


julie delpy, antes da meia-noite


paulina garcía, gloria


luminita gheorghiu, instinto materno

ator coadjuvante


bruce dern, nebraska


jared leto, clube de compras dallas


matthew mcconaughey, o lobo de wall street


christophe paou, um estranho no lago


filippo timi, um castelo na itália

atriz coadjuvante


scarlett johansson, ela


margo martindale, álbum de família


lupita nyong’o, 12 anos de escravidão


kristin scott-thomas, só deus perdoa


tilda swinton, expresso do amanhã

roteiro original


woody allen, blue jasmine


spike jonze, ela


petra costa e carolina ziskind, elena


james gray e ric menello, era uma vez em nova iorque


noah baumbach e greta gerwig, frances ha

roteiro adaptado


karim aïnouz e beatriz bracher, o abismo prateado


julie delpy, ethan hawke e richard linklater, antes da meia-noite


yōji yamada e emiko hiramatsu, uma família em tóquio


terrence winter, o lobo de wall street


david ives e roman polanski, a pele de vênus

filme de estreia


elena, de petra costa


fruitvale station: a última parada, de ryan coogler


i am not a hipster, de destin daniel cretton


la jaula de oro, de diego quemada-díez


tatuagem, de hilton lacerda

fotografia


darius khondji, era uma vez em nova iorque


laurie rose, a field in england


emmanuel lubezki, gravidade


bruno delbonnel, inside llewyn davis – balada de um homem comum


tudor mircea, quando a noite cai em bucareste ou metabolismo

montagem


marília moraes e tina baz, elena


amy jump e ben wheatley, a field in england


thelma schoonmaker, o lobo de wall street


morten højbjerg, jacob schulsinger e molly marlene stensgaard, ninfomaníaca, vol. i


joão pedro rodrigues e joão rui guerra da mata, a última vez que vi macau

trilha original


christopher spelman, era uma vez em nova iorque


jim williams, a field in england


robin coudert, grand central


steven price, gravidade


michael riessler, a outra pátria

cena


catarse forçada, o abismo prateado


medo da escuridão, a dança da realidade


súplica, 12 anos de escravidão


acerto de contas, era uma vez em nova iorque


desejos, frances ha

Posted in Arte, Listas, No projetor | 1 Comment

filmes elegíveis para o quati de ouro 2013

são elegíveis todos os filmes que tiveram sua estreia comercial nalgum lugar do mundo no ano de 2013 e foram assistidos por mim de 1º de janeiro de 2013 a 25 de outubro de 2014.

título nacional | título original | direção
o abismo prateado | o abismo prateado | aïnouz, karim
blue jasmine | blue jasmine | allen, woody
os amantes passageiros | los amantes pasajeros | almodóvar, pedro
filth | filth | baird, jon s.
flores raras | flores raras | barreto, bruno
o sistema | the east | batmanglij, zal
frances ha | frances ha | baumbach, noah
minha vida dava um filme | girl most likely | berman, shari springer; pulcini, robert
expresso do amanhã | snowpiercer | bong, joon-ho
educação sentimental | educação sentimental | bressane, julio
laços de sangue | blood ties | canet, guillaume
até o fim | all is lost | chandor, j.c.
o lugar onde tudo termina | the place beyond the pines | cianfrance, derek
inside llewyn davis – balada de um homem comum | inside llewyn davis | coen, ethan e joel
fruitvale station: a última parada | fruitvale station | coogler, ryan
elena | elena | costa, petra
vic + flo viram um urso | vic + flo ont vu un urs | côté, denis
short term 12 | short term 12 | cretton, destin daniel
i am not a hipster | i am not a hipster | cretton, destin daniel
gravidade | gravity | cuarón, alfonso
bastardos | les salauds | denis, claire
camille claudel, 1915 | camille claudel, 1915 | dumont, bruno
o passado | le passé | farhadi, asghar
o verão da minha vida | the way, way back | faxon, nat; rash, jim
as bem-armadas | the heat | feig, paul
amor sem pecado | adore | fontaine, anne
somos tão jovens | somos tão jovens | fontoura, antonio carlos da
philomena | philomena | frears, stephen
cores | cores | garcia, francisco
o ciúme | la jalousie | garrel, phillippe
tese sobre um homicídio | tesis sobre un homicidio | goldfrid, hernán
miele | miele | golino, valeria
como não perder essa mulher | don jon | gordon-levitt, joseph
o que se move | o que se move | gotardo, caetano
era uma vez em nova york | the immigrant | gray, james
capitão phillips | captain phillips | greengrass, paul
o estranho do lado | l’inconnu du lac | guiraudie, alain
à procura do amor | enough said | holofcener, nicole
rush – no limite da emoção | rush | howard, ron
o hobbit: a desolação de smaug | the hobbit: the desolation of smaug | jackson, peter
uma viagem extraordinária | the young and prodigious t.s. spivet | jeunet, jean-pierre
a dança da realidade | la danza de la realidad | jodorowsky, alejandro
ela | her | jonze, spike
azul é a cor mais quente | la vie d’adèle: chapitres 1 et 2 | kechiche, abdellatif
pais e filhos | soshite chichi ni naru | kore-e-eda, hirokazu
spring breakers: garotas perigosas | spring breakers | korine, harmony
tatuagem | tatuagem | lacerda, hilton
jogos vorazes: em chamas | the hunger games: catching fire | lawrence, francis
burton and taylor | burton and taylor | laxton, richard
gloria | gloria | lelio, sebastián
antes da meia-noite | before midnight | linklater, richard
história de amor no texas | ain’t them bodies saints | lowery, david
amor pleno | to the wonder | malick, terrence
rânia | rânia | marques, roberta
pelos olhos de maisie | what maisie knew | mcgehee, scott; siegel, david
12 anos de escravidão | 12 years a slave | mcqueen, steve
repare bem | repare bem | medeiros, maria de
le week-end | le week-end | michel, roger
a busca | a busca | moura, luciano
a memória que me contam | a memória que me contam | murat, lucia
amor bandido | mud | nichols, jeff
as horas vulgares | as horas vulgares | oliveira, rodrigo de; graize, vitor
o ato de matar | the act of killing | oppenheimer, joshua; cynn, christine; diretor anônimo
doce amianto | doce amianto | parente, guto; reis, uirá dos
nebraska | nebraska | payne, alexander
instinto materno | poziția copilului | peter netzer, călin
a pele de vênus | la vénus à la fourrure | polansi, roman
the spectacular now | the spectacular now | ponsoldt, james
quando a noite cai em bucareste ou metabolismo | când se lasă seara peste bucureşti sau metabolism | porumboiu, corneliu
la jaula de oro | la jaula de oro | quemada-díez, diego
only god forgives | only god forgives | refn, nicolas winding
refém da paixão | labor day | reitman, jason
a outra pátria | die andere heimat: chronik einer sehnsucht | reitz, edgar
a última vez que vi macau | a última vez que vi macau | rodrigues, joão pedro; mata, joão rui guerra da
machete mata | machete kills | rodríguez, robert
é o fim | this is the end | rogen, seth; goldberg, evan
trapaça | american hustle | russel, david o.
faroeste caboclo | faroeste caboclo | sampaio, rené
filha de ninguém | nugu-ui ttal-do anin haewon | sangsoo, hong
nossa sunhi | uri seonhui | sangsoo, hong
o lobo de wall street | the wolf of wall street | scorsese, martin
touchy feely | touchy feely | shelton, lynn
terapia de risco | side effects | soderbergh, steven
minha vida com liberace | behind the candelabra | soderbergh, steven
a grande beleza | la grande belleza | sorrentino, paolo
a vida secreta de walter mitty | the secret life of walter mitty | stiller, ben
um castelo na itália | un château en italie | tedeschi, valeria bruni
blind detective | man tam | to, johnnie
ninfomaníaca, vol. i | nymphomaniac, vol. i | trier, lars von
hannah arendt | hannah arendt | trotta, margarethe von
clube de compras dallas | dallas buyers club | vallée, jean-marc
os suspeitos | prisoners | villeneuve, denis
the kings of summer | the kings of summer | vogt-roberts, jordan
o homem de gelo | the iceman | vromen, ariel
avanti popolo | avanti popolo | wahrmann, michael
álbum de família | august: osage county | wells, john
a field in england | a field in england | wheatley, ben
uma família em tóquio | tōkyō kazoku | yamada, yōji
grand central | grand central | zlotowski, rebecca

Posted in Sem categoria | 1 Comment

no projetor: top 5 descobertas cinematográficas de 2013

pouco ócio e muita correria, os males das minhas idas ao cinema em 2013 foram. nunca tinha visto tantos filmes elegíveis para o quati de ouro quanto na última edição; em compensação, essa outra lista anual ficou capenga: sem tempo livre e sem sala redenção, pude conferir poucos clássicos. de todo jeito, teve um tanto de coisa bacana cruzando meu caminho, quase sempre em mostras da sala p. f. gastal e em lançamentos tardios no circuito comercial no itaú de porto alegre. aqui, presto meu tributo às cinco melhores.

cabem na lista recomendações de filmes que tenham estreado em algum lugar do mundo antes de 2012 a que eu tenha assistido do último janeiro em diante. pralém dos finalistas, separo um espacito pras menções honrosas, indicando os excelentes antes do pôr-do-sol (linklater), trabalhar cansa (dutra & rojas), código desconhecido (haneke), além dum outro filme do béla tarr, que ficou de fora da lista pela limitação de um título por diretor: harmonias de werckmeister. sem mais, as grandes descobertas:

Monty Python - o sentido da vida
5 | monty python – o sentido da vida | terry jones & terry gilliam | 1983

depois de muito ouvir falar – eu quase já conhecia os esquetes todos da busca pelo cálice sagrado de ouvir falar –, conferi alguns dos filmes da trupe numa mostra. dos três filmes (todos estranhíssimos, com sua forma particular cheia de altos geniais e baixos medianos, inevitáveis), a historieta que mais se cravou na minha memória foi a do moço que come sem-fim e explode. é dos momentos mais escatológicos de que me lembro, mas o tratamento de humor é tão cabido, que o pastelão fica valendo a pena.

As quatro voltas
4 | as quatro voltas | michelangelo frammartino | 2010

as quatro voltas se constroem dum jeito tão sutil, que, quando eu finalmente notei a progressão narrativa, fiquei francamente comovido. a proposta do frammartino de filmar o que tem a dizer a natureza (ou cê teria outra explicação pra performances assim memoráveis do cachorro e dos cabritos, que praticamente encenam o rei leão?) me puxa prum bocado de reações fortes, seja porque vai na contramão de basicamente tudo o que se está produzindo, seja porque me leva preu próprio, olhando com gosto pros arredores.

Danação
3 | danação | béla tarr | 1988

costumo gostar um tantão de finais-síntese. não falo de conclusões reiterativas ou explicativas, que a preguiça raras vezes me soa boa na arte, mas daquelas que jogam uma luz nova sobre a obra assim que ela finda. o de danação, assustadorzíssimo, é dos momentos mais brilhantes não só da filmografia do béla tarr (e estamos falando do moço que nos entregou sátántangó), como de todo o cinema que eu conheço.

A caverna dos sonhos esquecidos
2 | a caverna dos sonhos esquecidos | werner herzog | 2011

me interessei nesse filme por causa do alvoroço que se formou ao redor dele numa mostra de são paulo de faz já anos. eu tinha ele à mão praticamente desde aquela época, mas acabei deixando pra trás porque não conseguia imaginar como podiam ter gostado tanto dum documentário numa caverna. fui conferir quando ele chegou ao circuito de porto alegre (o 3-d, nunca antes tão essencial, agradece) e encontrei um filme artística, técnica e filosoficamente tão preparado como pouca coisa que vi antes.

O salário do medo
1 | o salário do medo | henri-georges clouzot | 1953

talvez eu nunca consiga entender de todo por que tanto amo jorge um brasileiro, mas agora já dá de notar que gente dando o máximo de si na boleia dum caminhão parece ser um padrão nas minhas preferências. assim que cogitei a ideia de esmiuçar o livro do frança jr., um amigo me sugeriu que visse a obra do clouzot. demorei um cadinho, mas fui ver no cinema. é especialmente cruel que esse seja um filme do tempo em que os créditos apareciam no começo, porque, acabada a duração, fui como ejetado da sala: sem dar pio, saí auto-abraçado, em estado catatônico até depois de chegar em casa.

Posted in Arte, Listas, No projetor, Sem categoria | Leave a comment

na caixa: top 10 descobertas musicais de 2013

sigo a brincadeira de propor uma lista com as 10 melhores músicas que conheci no ano. nas edições passadas, eu me revelava à sorrateira por detrás dos meus gostos, mas, dessa vez, indicar as preferências implicou praticamente tecer uma mixtape pro período: quase todas as músicas estiveram, em algum ponto do ano, no topo das minhas mais escutadas pelo simples motivo de que eu precisava delas lá. é, portanto, a lista mais escandalosa e, por isso mesmo, a de menor pretensão (já que, mais que nunca, diz respeito à minha bagagem e só).

continua o esquema de hábito: podem integrar a lista músicas que eu nunca tenha ouvido até o início desse ano, não importando a sua data de lançamento. só entra, no máximo, uma faixa por autor. quem quiser conferir as ditas cujas pode clicar sobre as imagens: todos os itens têm um link pra acompanhamento, ora de versões de estúdio ou ao vivo, ora de clipes.

Explosions in the sky
10 | look into the air | explosions in the sky | 2000

busquei no how strange, innocence o tipo de conforto que encontro no gentle stream dos the amazing. pralém do tom, me parecem discos assemelhados porque ambos têm esse quê fluido que não deixa cê saber onde termina e começa que música. o cadinho mais elétrico desse aqui, um tanto diferente do outro álbum, me caiu especialmente bem porque era justo do que eu precisava no momento em que cheguei a ele: quando escorreguei no look into the air, através desse vídeo inspiradorzíssimo, a catarse foi das fortes.

Filipe Catto
9 | roupa do corpo | filipe catto | 2011

tava voltando pra casa numa chuva chuvíssima. no corredor de ônibus, cuidei pra ficar longe da mureta, pra não levar um banho dos carros apressados. enquanto o catto me cantava no ouvido a dupla rima rica, frase feita / puro teatro — que, mais tarde, apelidei de «trilha sonora oficial da urucubaca» —, veio um banho do outro lado, dum ônibus imprevisto. sem problema: larguei rapidinho minhas coisas em casa e corri de volta pro pátio do prédio, dessa vez pra tomar um banho de chuva de verdade, cantando (ou entoando como mantra) a roupa do corpo, antídoto dos bons.

Xoel López
8 | hombre de ninguna parte | xoel lópez | 2012

não é porque está montando um álbum sul-americanamente ensolarado que o xoel lópez vai largar o seu sotaque espanhol, mas dá de ver, aqui e ali, que o acento não fica intacto. taí o que tanto me interessa no atlántico: submetido voluntariamente a um caleidoscópio identitário, xoel se municia do que de melhor encontra à volta e senta pra encarar o sol — que, por sinal, extrapolados uns graus ao norte e ao sul, é quase o mesmo que enxergo eu todo dia. aqui, ele não é de parte alguma, mas ele se é. já pode gritar bingo.

Justin Timberlake
7 | futuresex/lovesounds | justin timberlake | 2007

não passei a última década debaixo das pedras, mas não fazia ideia de que as músicas do justin eram do justin. ouvir o futuresex/lovesounds inteiro foi uma revelação, não só por ter sido um acerto de contas inevitável que finalmente teve lugar, mas também porque não me pôde deixar de ser impressionante como ele, numa pretensão desmiolada e bem executada como a peste, plasma tão bem a dança do acasalamento em música.

Valesca Popozuda
6 | beijinho no ombro | valesca popozuda | 2013

é meio absurda a quantidade de versos memoráveis em beijinho no ombro: fica parecendo que os produtores da valesca se juntaram pra montar um compêndio inspirado de pensamentos representativos da vida moderna corriqueira e foram podando as arestas todas da lista até chegar a essa versão final, irrepreensível. mas daí soa tudo tão espontâneo e dela, que eu não sei pronde correr. fico onde tô, então, e desço até o chão.

Fiona Apple
5 | hot knife | fiona apple | 2012

com valentine, eu já tinha notado que a fiona apple sabia o que tava fazendo, mas foi no todo do the idler wheel […] que vi uma artista sem fim, não só consciente, como à vontadíssima na sua dicção. é em hot knife que isso fica mais claro: a fiona larga tudo em tom menor e faz um joguete na chave entoativa, obstruindo as engrenagens e quebrando os mecanismos todos — ela não precisa deles, afinal de contas. de brinde, vem o clipe do ano.

Maria João & Mário Laginha
4 | unravel | maria joão & mário laginha | 2002

disse uma vez o guto que ele desmontou quando ouviu a maria joão ao vivo. à época, fui atrás da beatriz, que não me largou sem deixar marcas, mas tampouco me pegou de primeira. há umas semanas, depois de recomendações renovadas, doutros amigos, voltei a buscar trabalhos da moça. sem saber, caí nessa releitura quase impensável do unravel da björk (a joão e o laginha dão à luz uma locomotiva), que, aí sim, me arrebatou sem volta.

Márcia & JP Simões
3 | a pele que há em mim (quando o dia entardeceu) | márcia & jp simões | 2011

a precisão dos versos, aqui, é tamanha, que eu desconfio que só fui entender o que tinha acontecido na minha vida (e, ressalvadas as proporções, essa deve ser a canção com que mais me consigo identificar, esse ano) depois de ouvir essa música. se, no restante do , a márcia me parece uma promessa charmosa com o arroz quase no ponto, nesse momento — e cumpre dizer que a canção saiu um ano mais tarde, na re-edição do álbum —, ela coloca, todos no lugar certo, os feijões que catou com um bocado de cuidado, madura.

Els amics de les arts
2 | louisiana o els camps de cotó | els amics de les arts | 2012

o catalão, que já me vinha fisgando há uns anos, virou, nesse, quase item de sobrevivência. cheguei no espècies per catalogar um bocado precisado dum cantinho arejado e nele encontrei alguns dos meus contos-canção favoritos. de lá pra cá, pelo menos umas cinco músicas se ficavam revezando na minha preferência (é mesmo um disco cheio de joias), mas destaco louisiana pelo seu apelo diretíssimo a mim: talvez seja a canção definitiva sobre morar longe da família, e já tem uns dez anos que, de algum ângulo, eu entendo disso.

Marli
1 | macumba pirata | marli | 2013

do zilhão de coisas maravilhosas que a internet brasileira tem a oferecer, pode ser que a marli seja a melhor. o projeto é um tour de force do witched, o produtor, que vem montando há quase uma década uma personagem sofisticadíssima que, se pautando na apropriação do absurdo, na sátira do conceito e na colagem de referências improváveis, é —sem querer ser — a nossa última tropicalista. na macumba pirata, a dupla atinge um patamar tal, que não pude deixar de espalhar pela casa post-its com seus melhores versos.

Posted in Listas, Na caixa | Leave a comment

No projetor: os vencedores do Quati de ouro 2012

Desde outubro, o provável vencedor do prêmio de Melhor filme vinha se mantendo invencível na disputa, mas foi porque a concorrência deixou para vir no último minuto: no ultimíssimo dia do prazo de eligibilidade (sério sérião, foi no 30 de junho), vi o encantadoríssimo Tabu e fiquei sem saber que rumo tomar. Resolvi esperar assentarem as ideias, para, mais à frente, dar o veredicto; no fim, acabei mantendo a decisão de antes, preferindo a ética à estética. Menos sorte, tiveram os vencedores preliminares das categorias de Atriz principal e Ator coadjuvante, também quase definidos há meses, que acabaram destronados por concorrentes sorrateiros justo no momento do bater dos martelos. Foram escolhas sinceras. Se felizes, só descubro daqui a um tempo.

O que desde já me parece evidente é a força do cinema brasileiro em 2012. Se, no anúncio dos indicados, tínhamos o recorde esmagador de 15 indicações para 4 filmes tupiniquins (o mais próximo disso até então tinham sido as 3 indicações isoladas para Tropa de elite 2, em 2010), agora se repete o resultado sensacional: este ano, os dois filmes do Recife levam cinco Quatis. Não é cota, nem bairrismo. É, das duas, uma: a conjuminação dos astros ou a formação dum movimento empolgante no cinema nacional. Por ora, é esperar e conferir.

Dos indicados ao Quati de ouro, vão aí os melhores em suas respectivas categorias:

Melhor cena


Entrevista sem piscar, O mestre

Melhor trilha original


Chai Batana, Hotel Mekong

Melhor montagem


Telmo Churro e Miguel Gomes, Tabu

Melhor fotografia


Rui Poças, Tabu

Melhor filme de estreia


O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

Melhor roteiro adaptado


Tracy Letts, Killer Joe – matador de aluguel

Melhor roteiro original


O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

Melhor atriz coadjuvante


Marion Cotillard, Ferrugem e osso

Melhor ator coadjuvante


Matthew McConaughey, Killer Joe – matador de aluguel

Melhor atriz principal


Emmanuelle Riva, Amor

Melhor ator principal


Joaquin Phoenix, O mestre

Melhor elenco


Febre do rato

Melhor direção


Kleber Mendonça Filho, O som ao redor

Melhor filme


O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

Posted in Arte, Listas, No projetor | 1 Comment

No projetor: os indicados ao Quati de ouro 2012

Faz já um tempo que, por essa época, listo os meus filmes favoritos do ano anterior. A princípio, era só um antídoto para a ó-tão-divertida-porém-perversa corrida do Óscar, que eu adoro acompanhar, mas a coisa encorpou. Ano passado, resolvi anunciar publicamente as indicações pela primeira vez e o resultado foi um bocado bacana: se não se tornou subitamente a premiação mais aguardada da temporada, o Quati de ouro, como o intitulei, parece inspirar uma simpatia bem sincera entre os mais chegados. Me deram corda e hoje vê a luz a quarta edição dessa brincadeira toda minha.

Antes do auê, cumpre avisar dum par de novidades. Para esse ano, aposentei a categoria de Filme de animação por falta de bons candidatos. Além disso, montei um arquivo com os resultados das primeiras edições, até há pouco trancafiadas na gaveta: para quem quiser comparar gostos ou tomar recomendações, é só fuçar e ser feliz.

No mais, a ideia continua a mesma: como de hábito, é elegível qualquer filme que tenha sido lançado pela primeira vez em 2012 em algum canto do mundo, a que eu tenha assistido entre 1º de janeiro de 2012 e 30 de junho de 2013. O compêndio dos filmes que concorreram nessa edição fica disponível aqui. Os vencedores são anunciados em 18 de julho, em duas semanas. Seguem abaixo os lindões indicados ao Quati de ouro de 2012.

Melhor filme


Um alguém apaixonado, de Abbas Kiarostami


Amor, de Michael Haneke


Febre do rato, de Cláudio Assis


Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.


O impossível, de Juan Antonio Bayona


Killer Joe – matador de aluguel, de William Friedkin


O mestre, de Paul Thomas Anderson


O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho


Tabu, de Miguel Gomes


A visitante francesa, de Hong Sangsoo

Menções honrosas


Argo, de Ben Affleck


Branca de neve, de Pablo Berger


Detona Ralph, de Rich Moore


Holy motors, de Leos Carax


Indomável sonhadora, de Benh Zeitlin

Melhor direção


William Friedkin, Killer Joe – matador de aluguel


Miguel Gomes, Tabu


Michael Haneke, Amor


Kleber Mendonça Filho, O som ao redor


Hong Sangsoo, A visitante francesa

Melhor elenco


Febre do rato


O impossível


Killer Joe – matador de aluguel


A parte dos anjos


O som ao redor

Melhor ator principal


John Hawkes, As sessões


Denis Lavant, Holy motors


Mads Mikkelsen, A caça


Joaquin Phoenix, O mestre


Jean-Louis Trintignant, Amor

Melhor atriz principal


Maria Sebastiana Álvaro, Girimunho


Isabelle Huppert, A visitante francesa


Deanie Ip, Tao jie


Camila Pitanga, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios


Emmanuelle Riva, Amor

Ator coadjuvante


Pier Giorgio Bellocchio, A bela que dorme


Dwight Henry, Indomável sonhadora


Tommy Lee Jones, Lincoln


Matthew McConaughey, Killer Joe – matador de aluguel


Tom Holland, O impossível

Atriz coadjuvante


Nanda Costa, Febre do rato


Marion Cotillard, Ferrugem e osso


Anne Hathaway, Os miseráveis


Maeve Jinkings, O som ao redor


Laura Soveral, Tabu

Roteiro original


Abbas Kiarostami, Um alguém apaixonado


Michael Haneke, Amor


Kleber Mendonça Filho, O som ao redor


Miguel Gomes e Mariana Ricardo, Tabu


Hong Sangsoo, A visitante francesa

Roteiro adaptado


Chris Terrio, Argo


Pablo Berger, Branca de neve


Sergio G. Sánchez, O impossível


Tracy Letts, Killer Joe – matador de aluguel


Pedro Peirano, No

Filme de estreia


Celeste e Jesse para sempre, de Lee Toland Krieg


Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.


Juan dos mortos, de Alejandro Brugués


Indomável sonhadora, de Benh Zeitlin


O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

Melhor fotografia


Katsumi Yanagijima, Um alguém apaixonado


Walter Carvalho, Febre do rato


Mihai Mălaimare Jr., O mestre


Rui Poças, Tabu


Jee Yune Jeong e Park Hong-yeol, A visitante francesa

Melhor montagem


William Goldenberg, Argo


Nelly Quettier, Holy motors


Darrin Navarro, Killer Joe – matador de aluguel


João Maria e Kleber Mendonça Filho, O som ao redor


Telmo Churro e Miguel Gomes, Tabu

Melhor trilha original


Alfonso de Villalonga, Branca de neve


Chai Batana, Hotel Mekong


Fernando Velázquez, O impossível


Jonny Greenwood, O mestre


Dan Romer e Benh Zeitlin, Indomável sonhadora

Melhor cena


Lama no parabrisa, Além das montanhas


Teimosia, Amor


Dança das gerações, Branca de neve


Frango frito, Killer Joe – matador de aluguel


Entrevista sem piscar, O mestre

Posted in Arte, Listas, No projetor | 2 Comments