Na caixa: Top 10 descobertas musicais de 2011

Quando percebi que 2011 estava sendo bastante prolífico em termos de descoberta de músicas notáveis, propus um auto-desafio: listar, no fim do ano, aquelas que mais me haviam marcado. Na brincadeira, cheguei à lista que segue abaixo, totalmente sem pretensões de chegar a lugar algum e com certa consciência das presepadas cometidas.

Aqui, só entram canções que eram inéditas para mim até o início desse ano, sem restrições de data de lançamento. Fora isso, impus o limite de uma faixa por autor. Para a maioria das selecionadas, indico um link para acompanhamento, seja das versões de estúdio, clipes ou de performances ao vivo: se quiser ouvir, é só clicar sobre a imagem.

Cansei de Ser Sexy
10 | Art Bitch | Cansei de Ser Sexy | 2005

A faixa em questão não é o expoente máximo da cacofonia que impera sobre o disco de estreia da banda, mas serve como perfeita introdução ao conceito da brincadeira do álbum. A arte no inusitado, a arte como masturbação mental, a arte pela diversão. Mais leviano, impossível. A questão é que a ideia só funciona tão bem por causa dessa adorável engrenagem fuck-it. Podem julgar à vontade, mas sempre fui meio afeito ao dadaísmo.

Nesli
9 | La Fine | Nesli | 2009

Se, em sua reinterpretação, Tiziano Ferro  falando palavrão me deu uma preguiça absurda, a versão original é à prova de balas. É uma daquelas músicas feitas sob medida para desarmar qualquer um. Não sei se pelo piano, que no contexto soa deslocado, ou pela voz rouca discursando a letra, mas ela soa genuína e daí vem sua força. Talvez tenha gostado tanto porque o refrão edificante parece mais um mantra que, de fato, uma crença.

Pixies
8 | Hey | Pixies | 1989

O clássico Doolittle combinou muito com a época em que o conheci. Na tentativa de dar certa consistência a uma massa confusa (minha vida), o caos charmoso desse disco me pareceu o caminho a seguir – se não fosse o melhor, já seria alguma coisa. O álbum todinho me soa como uma ode ao desespero, mas essa faixa, em particular, me remete a um ciclo vicioso de tentativas frustradas de largar a escrotidão. Faz todo o sentido do mundo.

Nick Drake
7 | Which Will | Nick Drake | 1972

Ainda que tido como um disco depressivo por excelência, Pink Moon me passa uma impressão justamente contrária, de calmante natural. O folk de Drake é um meio-termo entre o fio de água escorrendo e o acalanto da mãe. Mais que um drama de agruras do amor, essa faixa me parece uma tentativa sincera de compreensão e aceitação de que nossa vida depende do livre-arbítrio de outrem.

Vasco Rossi
6 | Senza Parole | Vasco Rossi | 1994

Não sei se algum dia terei coragem suficiente para escutar a versão original dessa música. Apostaria que não. A versão do Eduardo no karaokê dos Pasini é, para mim, a definitiva. Reconstitui uma das etapas mais bacanas da minha vida e resgata uma miscelânea de sentimentos que poucas outras canções dão conta de evocar. É uma pena, de verdade, que não tenha sido registrada. Interpretação antológica.

Sigur Rós
5 | Gobbledigook | Sigur Rós | 2008

Með suð í eyrum við spilum endalaust (fiz questão de aprender a escrever isso à mão) é mais um estado de espírito que um álbum propriamente dito. Quando fui apresentado a essa música, me disseram que ela trazia “uma liberdade única”, uma coisa meio tribal que fazia até o mais agitado dos paulistanos se conectar à natureza. É tudo verdade. E mais: não há canção mais apropriada para correr na chuva.

Manel
4 | Benvolgut | Manel | 2011

Do disco do ano vêm uma série de faixas notáveis: a melhor delas é um épico de letra quilométrica que me embalou no início de um bocado de jornadas. Não só deu um verniz empolgante a meu deslocamento diário à parada de ônibus como me fez voltar à infância me animando a um desafio constante de inferência às escuras do sentido daquelas palavras catalãs todas. Ficou longe de surtir o efeito desejado, mas teve consequências divertidas.

Grizzly Bear
3 | I Live With You | Grizzly Bear | 2007

Derek Cianfrance, te devo uma. Não fosse Namorados Para Sempre, dificilmente teria chegado a Veckatimest, um disco de que gosto tanto que meu coração chega a doer quando o escuto.  Esse conceito de letras simples com melodias arrebatadoras (o que dizer do refrão todo soltinho, culminando na desordem cacofônica do final?) tem, em mim, um  grande fã. A performance linkada é uma das que mais me impressionou nesse ano.

Chico Buarque
2 | Construção | Chico Buarque | 1971

O texto de Construção é habituê das apostilas de Português e História. Curiosamente, nenhum professor teve a brilhante ideia de me apresentar a música em si. Veja a ironia: tive meu primeiro contato com ela enquanto preparava um mixtape especial para a família italiana que me estava hospedando e fui tomado por um misto de saudade e orgulho do meu país. Pela veia dramática, não chegou ao corte final (preferi a mais “leve” Cotidiano), mas, desde então, a obra-prima não me deixou em paz.

Björk
1 | Jóga | Björk | 1997

De vez em quando, dou uma de idiota desavisado. Decidi conhecer Homogenic na parada de ônibus. A começar por Jóga. Logo Jóga. Como resultado, os gritos de emergência da Björk, impiedosos, me destroçaram em pedacinhos. Só não comecei a chorar em público por intervenção divina: acabou a bateria do meu mp3 na metade da música. Não é por nada que, hoje, se pudesse, levaria esse disco debaixo do braço para qualquer canto que fosse.

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3 Responses to Na caixa: Top 10 descobertas musicais de 2011

  1. Sem sequer ouvir as músicas, terminei o post quase chorando. Você escreve de uma maneira que dá pra sentir a música e o que ela representa, fiquei, no mínimo, curiosa. Dessas todas, só conhecia Construção (shame on me).

  2. Gii Vasconcelos says:

    CHICO SEU LINDO (L) De todas aí, só conhecia Construção e Cansei de Ser Sexy que eu já acompanho a algum tempo :3 Já estou colocando aqui pra ouvir todas as músicas, porque você escreve de um jeito que parece que tá conversando aqui comigo *-* Sério, muito amor!

  3. Pingback: No projetor: Top 10 descobertas cinematográficas de 2011 | beveragem

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