No projetor: Top 10 descobertas cinematográficas de 2011

Trazendo, para o cinema, a brincadeira que foi a lista de melhores músicas pessoalmente inéditas, tive a ideia de compilar não os grandes lançamentos do ano, mas sim os descobrimentos mais bacanas do período. Assim, evito o dilema inevitável que é optar entre o circuito nacional e internacional, confusão de deixar qualquer um de cabelo em pé.

Reúno aqui apenas filmes anteriores a 2009, a que tenha assistido pela primeira vez desde janeiro. Sabendo que seria um ano bastante corrido, optei por selecionar com rigor os filmes que iria conferir. Dei preferência a uma cambada de diretores que ainda não conhecia, escolhendo obras de grande repercussão. Não é por nada, então, que metade dos trabalhos listados tenham sido minhas primeiras incursões no cinema de seus autores.

Vale citar que, numa lista um pouco mais encorpada, teriam vez Síndromes e um Século (Weerasethakul), A Divina Comédia (de Oliveira), Ilusões de Órbita (Šulík), A Melhor Juventude (Giordana) e A Rosa Púrpura do Cairo (Allen). Sem mais delongas, os finalistas:

O Céu de Suely
10 | O Céu de Suely | Karim Aïnouz | 2006

Impressiona como esse filme consegue costurar bem uma série de sequências poderosas. Não é só uma abertura lindona em super 8, nem a moto de João – noite ou dia – buscando Hermila, a entrega do prêmio da rifa ou, muito menos, o final desconcertante. Para além disso, tem um belo de um rejunte: a expressão sincera da perdição da mulher de quem se espera tudo e a quem se ajuda nada, inserida numa comunidade, por si, já marginalizada.

2001: uma Odisseia no Espaço
9 | 2001: uma Odisseia no Espaço | Stanley Kubrick | 1968

Deve haver um lugar especial no inferno para aqueles que não colocam esse filme na primeira colocação de qualquer lista. Humildemente, digo que ele mais me interessou por como não envelheceu nadica que pela genialidade da narrativa. Seria pretensão minha, inclusive, dizer que entendi tudo o que Kubrick quis dizer nessa primeira tacada. De momento, busquei ficar bêbado com as imagens e sons. Deu certo: o conjunto foi uma das coisas mais marcantes a que já assisti. Cabe a revisão.

Pixies
8 | A Professora de Piano | Michael Haneke | 2001

Quando diz não ter sentimentos, a protagonista serve como uma espécie de alter-ego da persona do diretor perante o cinema. O pessimismo impregnado em cada enquadramento tem vazão, também, nos movimentos complexos da personagem-título – meio revoltada com tudo em volta, mas, sobretudo, rígida. Entra aí a habilidade soberba de Huppert, totalmente à disposição da história para ter sua arestas humanas exploradas à minúcia.

O Joelho de Claire
7 | O Joelho de Claire | Éric Rohmer | 1970

Da nota de falecimento do velhinho no Jornal da Globo, o que me chamou a atenção foi a paleta de cores desse filme. A grama parecia muito mais verde e o céu, muito mais azul que o normal. De fato, é tudo muito saturado e bonito, mas, estando do outro lado, o que me marca nessa joia é o estudo sobre o romance preparado pelo protagonista – e talvez Rohmer tenha feito a desconstrução de relações amorosas mais imponente que já conferi.

Festa de Família
6 | Festa de Família | Thomas Vinterberg | 1998

O expoente máximo do Dogma 95 é arrebatador. Assisti-lo é como ser saco de pancadas dum mundial de boxe. O roteiro ácido, a câmera treme-treme, as atuações contundentes – e qualquer outro recurso possível – são preparados para dar porradas na boca do seu estômago, sem cessar. Com toda essa lavação de roupa suja, o diretor passa uma finíssima peneira moral na hipocrisia, a fim de mostrar o ser humano como essencialmente podre.

O Importante É Amar
5 | O Importante É Amar | Andrzej Żuławski | 1975

Fui dar conta do estrago que O Importante É Amar havia causado em mim há pouco tempo. Percebi que a cena que mais me tinha impressionado no cinema era a abertura desse projeto pitoresco. Talvez esteja longe das unanimidades, mas se me pedissem para explicar o que é mise-en-scène, daria a sugestão de começar por aqui. Tudo parece uma orquestra ensaiadíssima para sublimar a performance de Romy Schneider.

Uma Mulher É uma Mulher
4 | Uma Mulher É uma Mulher | Jean-Luc Godard | 1961

Essa, que há de ser minha comédia romântica preferida, é um filme de ícones. A abertura já pressupõe que é uma obra de Belmondo, Brialy e – mais que ninguém – Karina. O jeito blasé e anticlimático de Godard juntar as pontas mostra o tamanho da preguiça que ele tem das convenções. Tão revigorante que compensou o banho de água fria assustador que eu levara na minha iniciação na sua carreira, com Filme Socialismo.

Vidas Secas
3 | Vidas Secas | Nelson Pereira dos Santos | 1963

Uma coisa levou à outra. Do trabalho de Literatura, fui ao filme. Do filme, ao livro. Talvez não seja o caminho mais admirável a se seguir, mas, de todo jeito, Baleia mudou minha vida como nenhuma outra personagem. Das palavras de Graciliano, dos Santos reinventa uma história tão rústica, desconfortante e emocionante quanto a do material original, mas se supera naquilo que era mais difícil: transpor a pobreza, concreta e abstrata, para o frame.

Persona
2 | Persona | Ingmar Bergman | 1966

Bergman tem o controle total sobre a linguagem do cinema – aterroriza com a imagem, instiga com a sugestão e prende com a habilidade de mestre. O trabalho de fotografia em claro-escuro é, de longe, o mais primoroso que já vi. O fantástico caso psicológico é encenado com uma primazia única. Esse é, então, um filme de superlativos. Acredite se quiser: (500) Dias com Ela e A Primeira Noite de um Homem me trouxeram aqui.

Sátántangó
1 | Sátántangó | Béla Tarr | 1994

Esse épico de sete horas e meia é uma exposição de largas paredes de cavernas cheias de desenhos rupestres caprichados. É a alegoria da comunidade húngara que, sem sucesso, luta para sobreviver no pós-comunismo. De pouco importa o contexto, porém: a narrativa da decadência está fadada à repetição em qualquer outra situação imaginável. Num misto de curiosidade pueril e rigoroso domínio da imagem, Tarr constrói, nos três capítulos intermediários, o que eu considero como a obra mais próxima da arte pura.

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3 Responses to No projetor: Top 10 descobertas cinematográficas de 2011

  1. Liloca says:

    Amore, quanta coisa diva! Preciso ver todos, mas em especial persona!

  2. Luis says:

    Como sempre teu texto tá ótimo! Mas, claro, sobre os filmes: eu quero ver Sátántangó! Lembro que tu me falou sobre ele um dia no ônibus, tinha ficado curioso, agora realmente me instiguei a assistir o filme.

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