Na caixa: Top 10 descobertas musicais de 2012

Nesse ano, por mais que tivesse à mão um bocado de amigos com gostos musicais respeitáveis cheios de dicas para dar, não dei ouvidos ao que praticamente ninguém tinha a dizer. Segui com minhas frescuras e desbravei quase sozinho a parte do mundo que chegou até a mim. Do resultado, selecionei uns belos exemplares e montei a lista brincalhona que vem a seguir, totalmente inconsequente, mas ciente do seu lugar pouco no jogo todo.

Sigo, aqui, as mesmas regras do ano passado: entram músicas que eu nunca tinha ouvido até o início desse ano, não importando a época de lançamento. Também repito o limite de uma faixa por autor. Todas elas, aliás, têm um link para acompanhamento, seja de versões de estúdio, clipes ou de performances ao vivo: se quiser ouvir, é só clicar sobre a imagem.

Sharon Van Etten
10 | Serpents | Sharon Van Etten | 2012

Quando saí em busca de teto em Porto Alegre pela primeira vez, era Give out a música que tocava sem parar na minha jukebox mental. Uns meses depois, já assentado, deixei que Serpents tomasse o seu lugar. Virou uma espécie de mantra pessoal por um tempo: romper com a serpente, de fato o bicho que me tira do sério, me pareceu uma boa ideia a colocar em prática. Se hoje Tramp não me soa um disco tão marcante assim, no mínimo, dessas duas canções bem possantes Sharon se pode gabar.

The Amazing
9 | Gone | The Amazing | 2011

Se Gentle stream, o mais recente disco dos Amazing, é o refúgio inconsciente ao qual venho recorrendo quase sempre quando tenho dúvidas de quem escutar, certamente não é porque eu tenha feito muito esforço para que isso acontecesse: suponho que a explicação esteja em o álbum ser mesmo essa correnteza gentil que me garante a sobrevivência e me faz cafuné nos neurônios. Mesmo por isso, fica bem complicado destacar uma canção das sete (é tudo tão mais coeso junto), mas, por ora, me parece que Gone tem um teco a mais. Que siga o curso e desemboque no ouvido de muita gente mais.

Regina Spektor
8 | Rejazz | Regina Spektor | 2001

Tinha medo dos primeiros discos da Regina (céus, a capa do Soviet Kitsch!), mas quando finalmente os escutei — meio que num momento de descuido dos dramas — descobri dois álbuns lindo lindões. Rejazz, em específico, talvez me fale com tanta força porque topei com ela justo no momento em que mais precisava de algo do tipo. Mais que um par de vezes, naquela época, dei por mim acompanhando a letras aos berros (já umas doses de cachaça mais tarde), enquanto estava sozinho em casa. Pobres dos meus vizinhos.

Manel
7 | Al mar! | Manel | 2007

O Manel ataca novamente. O álbum de estreia de fato não é tão genial quanto o seu sucessor, mas, dentre as gratas surpresas, essa canção praieira (que parece ser mesmo a melhor música do mundo para se escutar na primeira hora da manhã na beirada do mar) traz o que de melhor tem marcado sua discografia: a letra enorme, entregue como numa conversa despreocupada, e a melodia um tico épica.

Maria de Medeiros
6 | Acorda amor | Maria de Medeiros | 2006

Ao que tudo indica, mesmo quando não estiver presente, o Chico vai ser habituê dessas listas. Lá pelo meio do ano, numa das minhas sempre produtivas caçadas sem rumo pela rede, descobri a Maria cantando Sentimental. Corri atrás do seu disco de releituras da MPB e, quando achei, foi no Acorda amor que ela me conquistou de vez. Linkada vem a charmosíssima apresentação bilíngue em que ela encena a canção para um público francês.

Raffaella Carrà
5 | En el amor todo es empezar | Raffaella Carrà | 1976

Quando fui atrás desse mito italiano numa madrugada de tédio na praia, não fazia a remota ideia de que estava a um clique duma revolução em mim mesmo. Depois do explota me explota me explo e de todos os seus correspondentes nas principais línguas indo-europeias (em italiano, francês, inglês, alemão e, veja bem!, até em português, numa versão toda marota do Sidney Magal), saí à caça doutros sucessos instantâneos e o que descobri foi uma loiraça de roupas ousadas/futuristas/bregas que tem muito mais a dizer sobre o que quer da vida do que eu próprio. Aproveito para agradecer ao vizinho desconhecido que me proporcionou essa experiência renovadora deixando a wireless sem senha. Bendito seja!

Andrew Bird
4 | Lazy projector | Andrew Bird | 2012

Tenho um amorzinho bem grande pelo Break it yourself desde que descobri o disco dum jeito meio obscuro (stalkeando conhecidos de conhecidos no last.fm): formou, junto com o A larum, do Johnny Flynn (injustiçado na lista), a minha grande trilha sonora matinal por uns bons meses. Mas não foi sem susto que soube algum tempo depois que foi Andrew Bird o moço que mais escutei esse ano. O álbum todo é mesmo uma belezoca, mas escolho essa canção pela sua baita companhia nas pedaladas pelo interior da minha cidade natal, nas quais perdi um cadinho de calorias e achei um tantão de mim mesmo.

Jeanne Moreau
3 | Joana francesa | Jeanne Moreau | 1973

Essa eu também descobri na voz da Maria de Medeiros, que é, do seu jeito, muito boa, mas nem de longe tão significativa quanto essa versão aqui. Enquanto a Medeiros faz um trabalho impecável de pronúncia, aqui são em boa parte as arestas da Moreau no português, as responsáveis pela lindeza da coisa toda. Não deu nem tempo: ouvi pela primeira vez e já mandei prum par de amigas, acompanhado duma primeira impressão ingênua, mas que se mantém até agora: «ouçam: é das coisas por que vale a pena viver».

João Gilberto
2 | Chega de saudade | João Gilberto | 1959

Das canções brasileiras clássicas, eis outra que só fui conhecer por agora. Volta e meia ouvia falar dum moço talentoso que mudou um bocado o nosso jeito de entender a música, mas só fui ter a dimensão do que isso de fato representava lá pela terceira audição dessa versão. Das primeiras vezes, me parecia simples demais: daí me dei conta de quão obscena é essa simplicidade e de como é lindo viver num mundo pós-João Gilberto, em que posso me dar o luxo de cantarolar isso perambulando pelo supermercado na procura de Lebkuchen.

Frank Ocean
1 | Pyramids | Frank Ocean | 2012

De tanto eu a escutar, virou uma unidade de medida de tempo: sei que o shopping fica, a pé, a uma Pyramids e meia do meu apê. O que me pega tanto é que não se trata duma música, mas dum portal para o álbum de que faz parte; e falo aqui de channel ORANGE, o disco do ano. O projeto é meio cretino (pô, dura dez minutos!), mas a realização aninha ali um mundo todo — um quê espinhoso e dolorido, é verdade, mas tão cheio de joias quanto esse outro cá fora. A reação que me suscita (e, desde já, me escuso do descaramento com que jogo isso ao vento) me faz pensar nela como se fosse essa uma Construção de hoje.

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One Response to Na caixa: Top 10 descobertas musicais de 2012

  1. Renan e seu poder de não mostrar praticamente nenhuma música conhecida [por mim] hahaha. Vai um pouco de tempo pra eu ouvir todas, mas espero que eu goste tanto de alguma em específico como eu gostei de La Fine, do Nesli. E como sempre, ótimos textos, parabéns =)

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