No projetor: Top 10 descobertas cinematográficas de 2012

Parece que, de todos os lados que você olhe, esse foi um ano de virada para mim. De longe, a mudança mais evidente fica por conta do cinema. Antes de que acabasse janeiro, já tinha topado com um novo filme favorito da vida, superando o Bastardos inglórios que vinha imbatível desde 2009. No meio de maio, revisitei outro a que tinha assistido umas poucas semanas antes e descobri aquele que é hoje o maior dono do meu coração cinéfilo – que, convenhamos, mais parece bolsa de valores, com os tantos amores verdadeiros que tem.

Tive acesso a um bocado de coisa bacana nesse primeiro ano de frequentador assíduo da sala Redenção (e do circuito alternativo de Porto Alegre, em geral). Minha dívida com os clássicos ainda é proibitiva, mas, se há que se começar a reverter a situação de algum jeito, acho que não estou lá tão fugido do caminho: foram, no total, pouco mais de 200 filmes assistidos, 111 dos quais, vistos no cinema; desses, mais de metade não era lançamento.

Na lista que segue, reúno os meus filmes favoritos que tenham sido lançados antes de 2010 e a que eu tenha assistido pela primeira vez desde janeiro desse ano. Também limito uma menção por diretor: do contrário, a lista pertenceria ao Antonioni, de quem assisti boa parte da filmografia lindona numa mostra especial. Como prêmio de consolação, cito os três dele que provavelmente fariam parte duma seleção menos rígida (O eclipse, Profissão: repórter, Blow-up – depois daquele beijo) e outros dois que, por pouquíssimo, ficaram de fora: Magnólia (Anderson) e Mal dos trópicos (Weerasethakul). À lista, enfim:

Fados
10 | Fados | Carlos Saura | 2007

Tropecei nesse filme porque fazia dobradinha na sala Redenção com Tango, do mesmo Saura, e achei que fosse uma boa arriscar ver, também, esse outro. No pior dos cenários, eu já teria aproveitado o meio tempo entre as sessões para jantar no RU e não precisaria fazer comida em casa. Fui às escuras e tomei vários sustos: o maior deles, quando percebi que, de fato, aquele documentário musical sobre fado incluindo Caetano cantando em falsete com sotaque português talvez fosse um dos grandes filmes que tivesse visto na vida.

O sétimo continente
9 | O sétimo continente | Michael Haneke | 1989

Poucas coisas me deixam tão desconfortável quanto estar com a família dentro dum carro no lava-a-jato. Parece que em algum momento a pressão dos limpadores sobre os vidros vai fugir do controle da máquina e que, estando lá dentro, se está sujeito a ser atingido pelos estilhaços mil, sem escapatória. Haneke usa essa minha angústia (mais de uma vez) para contar justo a história duma família a quem o adjetivo estilhaçada muito parece caber.

Yellow submarine
8 | Submarino amarelo | George Dunning | 1968

A grande pauta do filme é a psicodelia e só isso já tornaria minha ideia meio impraticável, mas, veja bem, o que me pegou de jeito aqui foi mesmo a impressão de que todo mundo no projeto sabia, na minúcia, o que estava fazendo. Um tempo depois, a reação imediata ainda se sustenta forte: parece das obras mais redondas a que já assisti. A pedidos, mas com todo o mérito, o primeiro (e único, por enquanto) filme que aplaudi no fim da sessão.

Elemento de um crime
7 | Elemento de um crime | Lars von Trier | 1984

Ao contrário da maioria das pessoas, não tenho muito problema com violência no cinema. O que me encuca mesmo são duas coisas: répteis (alô, Vício frenético do Herzog, estou falando com você!) e calor (até em A escolha de Sofia). Se a primeira fica limitada a um par de cenas, a última costuma perdurar o filme inteiro e me deixar suando junto. Aqui, não há iguanas (só lêmures), mas somando-se ao calor o amarelo inescapável e a noite que nunca cede, tem-se das mais bem resolvidas visões apocalípticas em que já pus os olhos.

Apocalypse now
6 | Apocalypse now | Francis Ford Coppola | 1979

Era para ser um baita dum dia, mas era segunda-feira e o cinema da Casa de cultura não fazia expediente. Matei a tarde no jardim, mais pensando na vida que lendo o livro que tinha nas mãos. Quando a crise bateu, não havia uma só alma amiga por perto, nem celular que fosse atendido. Restou só a sessão noturna da sala Redenção. Não decepcionou: parecia que o objetivo do Coppola era fazer meu cérebro virar ovo frito a cada cinco minutos de filme. Saí de lá exausto, mas deliciado com o seu vidro de cenas antológicas em conserva.

Império dos sonhos
5 | Império dos sonhos | David Lynch | 2006

A Laura Dern está tão – mas tão – sensacional aqui, que esse filme quase passaria batido como um veículo para a sua tour de force, não fosse claramente mais um quebra-cabeça de outro mundo do Lynch sobre metalinguagem cinematográfica. Eu, no meu cantinho, apavorado da vida, fiquei me sujeitando às três horas de enquadramentos invasores, reviravoltas louconas e coelhos mal encarados. Feliz.

Um filme falado
4 | Um filme falado | Manoel de Oliveira | 2003

Estourado o champagne, conferi de dentro do apartamento os fogos de artifício lá na chuva. Era ano novo e não tinha muito o que fazer. Minha irmã sugeriu que, ao invés de ir logo dormir, a gente visse algum filme. A escolha não foi das mais tranquilas (ora, queria começar o ano com o pé direito!), mas, em retrospecto, parece das mais sábias: vinte minutos mar adentro, estava eu lá, tão extasiado com essa história simples, gigante e universal quanto me permitia aquele sotaque português, à época, impenetrável.

Macunaíma
3 | Macunaíma | Joaquim Pedro de Andrade | 1969

Regina Duarte é pouco. Não há quem tenha o pavor que eu sentia de Macunaíma, o livro. No contra a todas as expectativas, foi amor à primeira vista. Digo que, no todo, não foi pouca a serventia de ter visto o filme logo em seguida, antes que assentasse a empolgação: é provável que pouco daquela piração toda faça sentido para quem não leu o livro, mas, por isso mesmo, é dos melhores roteiros adaptados e, certo, certo, dos grandes filmes do Brasil.

A primeira noite de tranquilidade
2 | A primeira noite de tranquilidade | Valerio Zurlini | 1972

Não teve choro nem crise existencial. O italiano que destronou o Tarantino como diretor do meu filme predileto conseguiu o posto sem nenhum espalhafato. Muito pesou a seu favor o cabelo ensebado do Alain Delon, talvez a melhor expressão de cansaço com que já topei. Me impressiona o retrato da melancolia de quem percorre tranquilo o destino incontornável, que, mesmo nas curvas mais impensáveis, leva invariavelmente a um fim comum.

Zabriskie Point
1 | Zabriskie Point | Michelangelo Antonioni | 1970

Em vez do ser político, o herói do Antonioni aqui é aquele do dedo opositor. Faz tudo o que sempre se quer fazer: agir. Ouve, fala, cansa, vai embora, se perde, voa, seduz, escorrega, grita, beija, transa, se esconde, apronta, vai embora. Mais que intempestivo, sabe o que o espera e está pronto para encarar o que estiver por vir: continua até que se lhe permitam. Das mensagens mais óbvias, mas perigosas, porque esclarecedoras e impraticáveis.

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